|
||||
Os assassinos dos dias de festa
© Tradução: Regina Rheda
Maio de 2002 Com um arsenal cada vez mais aperfeiçoado de rifles, pistolas, fuzis, arcos e flechas, o ato de matar por esporte é um ritual de domínio sobre a natureza entendida como objeto de apreensão. As miras telescópicas permitem matar de uma distância grande o bastante para que o animal sequer se dê conta do perigo, não importa quão adaptado esteja ao meio. O objetivo está assegurado de antemão, o risco é mínimo: o acaso de uma confusão de alvos, por parte de um companheiro de jogo. A aventura é registrada depois, com sorrisos e cumprimentos nas mesmas fotos onde jaz, convertido em cadáver, aquele que há pouco desfrutava de sua parte na distribuição da vida. A maioria das pessoas não caça. Mas o destino de legiões de animais está nas mãos das que crêem que a fauna silvestre existe para satisfazer seus desejos de extermínio, um extermínio que abrange não apenas os indivíduos em particular, mas também suas estruturas sociais: ao lado dos milhões de mortos, milhões de órfãos e jovens que não sabem como cuidar de seu grupo porque lhes faltam os mais velhos para ensiná-los a atuar. Majestade, quietude, beleza. Estas são as qualidades que, talvez, um caçador veja em um veado e das quais acredite, ingênuo, poder apropriar-se, ao matá-lo. Caçar por esporte só pode surgir devido a uma confusão entre as fronteiras humano-animal, diz a antropóloga Heidi Dahles em sua análise sobre a caça na sociedade holandesa contemporânea. Ela assinala que o incremento do gosto pela caça cresceu na Holanda somente na “nova classe ociosa”. Muitos tipos de comércio rondam a atividade principal. Criação e treinamento de cães, criação de animais para serem usados como alvo, livros e vídeos especializados, seminários, restaurantes com gastronomia de caça, anúncios: urina de fêmea de javali, urina de raposo para evitar que o animal sinta o cheiro do caçador, empresas de safáris e, claro, armas. Os envolvidos na atividade da caça são, na sua absoluta maioria, homens, ainda que se almeje captar cada vez mais o público feminino. Do ponto de vista psicológico, a caça tem sido avaliada como uma forma de se reafirmarem a virilidade e a auto-estima. Ao se falar em virilidade, faz-se referência ao gênero e não ao sexo. Porque as mulheres também caçam, embora sejam uma minoria. No excelente estudo “Violência contra humanos e outros animais: uma análise comparativa do assassinato em série e o abuso dos animais” (Julho, 1999), Charlene Myers assinala os elementos comuns ao assassinato serial e à caça. A semelhança entre as linguagens usadas nos dois contextos se nota na habitual referência de muitos assassinos a “irem à caça”, a cada noite, de suas vítimas. A autora observa que o importante não é a morte da vítima, mas tudo que o criminoso deverá
Alegam que matam sem causar sofrimento, mas seus relatos pessoais transbordam de emoção persecutória: A outra face do medo, o acosso, a impotência da vítima. Calcula-se que, para cada animal que é morto, ao menos dois são feridos: os que morrerão lenta e dolorosamente de hemorragia, infecção ou inanição. As reportagens jornalísticas evidenciam outras vítimas – cavalos, vacas, cachorros e também pessoas – no desatino das bebedeiras pós-aventura. O que sobra no fim da jornada? O livro de Marco Denevi, “Os assassinos dos dias de festa”, termina com estas linhas: “Os corações privados de amor se tornam cruéis, ávidos e ferozes como guerreiros estrangeiros em uma cidade vencida. Entregam-se à pilhagem e à matança dos demais corações e convertem os dias de festa em noites de duelo”. “E o que isto tem a ver conosco?”, pergunta depois a protagonista… Na Argentina, algum dia irão querer “conservar” no zoológico os pumas que hoje são destruídos e cotados a um mínimo de 600 pesos nas províncias de La Pampa e Neuquén, onde também são oferecidos veado colorado, veado axis, veado dama, além de javali e queixada. A caça maior inclui também o veado-mateiro, o búfalo, o antílope e a cabra selvagem. A caça menor envolve perdizes (chica e colorada), martinetas, patos, pombas, avutardas e lebres, raposas, vizcachas, tatus e cotias. Animais em sério perigo de desaparecerem, como o huemul e cervo dos pântanos, integram o circuito de caça ilegal. Os exemplares saem do país como peças obtidas para um fim museológico ou científico, ou como animais mortos em cativeiro. “E os nossos direitos?”, queixam-se os caçadores. Certo. A mesma pergunta também é feita por humanos que matam outros humanos. Mas sempre existe a possibilidade do jogo inocente. Eis uma proposta para os caçadores: Seria altamente positiva a utilização de um coelho de pelúcia montado sobre quatro rodas e dirigido por controle remoto. O sistema proposto se denomina “caça incruenta” e foi adotado pelo zoológico Regent Park para que os falcões aprendam a caçar sem a necessidade da morte de animais indefesos. A técnica moderna permitiria também, e sem problemas, a montagem de alvos maiores. Publicado em La Unión em 4 de maio de 2002. 2007 Copyright © Ánima — Direitos reservados | Informação legal
|