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Os assassinos dos dias de festa

Ánima-is


© Aboglio, Ana María

Spanish Version

© Tradução: Regina Rheda

No campo / Na casa
Na caça / Aí
Há Cadáveres

Néstor Perlonguer - “Cadáveres”

Maio de 2002
Majestade, quietude, beleza. Estas são as qualidades que a grande maioria das pessoas percebe em um veado. A espécie é muito apreciada entre os adeptos da caça esportiva, grupo social dedicado ao acosso e à destruição de seres viventes. Na caça esportiva, exaltam-se a vida do animal como presa e sua morte como troféu.

Com um arsenal cada vez mais aperfeiçoado de rifles, pistolas, fuzis, arcos e flechas, o ato de matar por esporte é um ritual de domínio sobre a natureza entendida como objeto de apreensão. As miras telescópicas permitem matar de uma distância grande o bastante para que o animal sequer se dê conta do perigo, não importa quão adaptado esteja ao meio. O objetivo está assegurado de antemão, o risco é mínimo: o acaso de uma confusão de alvos, por parte de um companheiro de jogo. A aventura é registrada depois, com sorrisos e cumprimentos nas mesmas fotos onde jaz, convertido em cadáver, aquele que há pouco desfrutava de sua parte na distribuição da vida. A maioria das pessoas não caça. Mas o destino de legiões de animais está nas mãos das que crêem que a fauna silvestre existe para satisfazer seus desejos de extermínio, um extermínio que abrange não apenas os indivíduos em particular, mas também suas estruturas sociais: ao lado dos milhões de mortos, milhões de órfãos e jovens que não sabem como cuidar de seu grupo porque lhes faltam os mais velhos para ensiná-los a atuar.

Majestade, quietude, beleza. Estas são as qualidades que, talvez, um caçador veja em um veado e das quais acredite, ingênuo, poder apropriar-se, ao matá-lo. Caçar por esporte só pode surgir devido a uma confusão entre as fronteiras humano-animal, diz a antropóloga Heidi Dahles em sua análise sobre a caça na sociedade holandesa contemporânea. Ela assinala que o incremento do gosto pela caça cresceu na Holanda somente na “nova classe ociosa”.

Muitos tipos de comércio rondam a atividade principal. Criação e treinamento de cães, criação de animais para serem usados como alvo, livros e vídeos especializados, seminários, restaurantes com gastronomia de caça, anúncios: urina de fêmea de javali, urina de raposo para evitar que o animal sinta o cheiro do caçador, empresas de safáris e, claro, armas. Os envolvidos na atividade da caça são, na sua absoluta maioria, homens, ainda que se almeje captar cada vez mais o público feminino. Do ponto de vista psicológico, a caça tem sido avaliada como uma forma de se reafirmarem a virilidade e a auto-estima. Ao se falar em virilidade, faz-se referência ao gênero e não ao sexo. Porque as mulheres também caçam, embora sejam uma minoria. No excelente estudo “Violência contra humanos e outros animais: uma análise comparativa do assassinato em série e o abuso dos animais” (Julho, 1999), Charlene Myers assinala os elementos comuns ao assassinato serial e à caça. A semelhança entre as linguagens usadas nos dois contextos se nota na habitual referência de muitos assassinos a “irem à caça”, a cada noite, de suas vítimas. A autora observa que o importante não é a morte da vítima, mas tudo que o criminoso deverá
fazer para conseguir matá-la. Há também uma necessidade de um “troféu” do caçador, um paralelo do "souvenir” do assassino serial, que tantas vezes consiste de uma parte do corpo da vítima. As semelhanças também aparecem no uso da camuflagem para que o “trabalho” se realize com mais eficiência.
                  
Os caçadores usam diversos argumentos para defender suas atividades. Por exemplo:

  1. controle da superpopulação de animais – no entanto, matam também animais especialmente criados para o jogo e muitos indivíduos de várias espécies não exatamente abundantes;
  2. manejo da vida selvagem e conservação – eufemismo para programas que garantem o reabastecimento constante da matéria prima.

Alegam que matam sem causar sofrimento, mas seus relatos pessoais transbordam de emoção persecutória: A outra face do medo, o acosso, a impotência da vítima. Calcula-se que, para cada animal que é morto, ao menos dois são feridos: os que morrerão lenta e dolorosamente de hemorragia, infecção ou inanição. As reportagens jornalísticas evidenciam outras vítimas – cavalos, vacas, cachorros e também pessoas – no desatino das bebedeiras pós-aventura. O que sobra no fim da jornada? O livro de Marco Denevi, “Os assassinos dos dias de festa”, termina com estas linhas: “Os corações privados de amor se tornam cruéis, ávidos e ferozes como guerreiros estrangeiros em uma cidade vencida. Entregam-se à pilhagem e à matança dos demais corações e convertem os dias de festa em noites de duelo”. “E o que isto tem a ver conosco?”, pergunta depois a protagonista…

Na Argentina, algum dia irão querer “conservar” no zoológico os pumas que hoje são  destruídos e cotados a um mínimo de 600 pesos nas províncias de La Pampa e Neuquén, onde também são oferecidos veado colorado, veado axis, veado dama, além de javali e queixada. A caça maior inclui também o veado-mateiro, o búfalo, o antílope e a cabra selvagem. A caça menor envolve perdizes (chica e colorada), martinetas, patos, pombas, avutardas e lebres, raposas, vizcachas, tatus e cotias. Animais em sério perigo de desaparecerem, como o huemul e cervo dos pântanos, integram o circuito de caça ilegal. Os exemplares saem do país como peças obtidas para um fim museológico ou científico, ou como animais mortos em cativeiro.

“E os nossos direitos?”, queixam-se os caçadores. Certo. A mesma pergunta também é feita por humanos que matam outros humanos. Mas sempre existe a possibilidade do jogo inocente. Eis uma proposta para os caçadores: Seria altamente positiva a utilização de um coelho de pelúcia montado sobre quatro rodas e dirigido por controle remoto. O sistema proposto se denomina “caça incruenta” e foi adotado pelo zoológico Regent Park para que os falcões aprendam a caçar sem a necessidade da morte de animais indefesos. A técnica moderna permitiria também, e sem problemas, a montagem de alvos maiores.

Publicado em La Unión em 4 de maio de 2002.

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