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Libertação > Abordagen > Francione Uma revolução do coração
© Gary L. Francione © Tradução: Regina Rheda © 2009 Ediciones Ánima Caros(as) colegas: Muitos defensores dos animais pensam que precisamos de uma organização –alguma organização– para defender os animais não-humanos; que precisamos de um líder –algum líder– para nos mostrar o caminho. Na minha opinião, essa é a maneira errada de encarar as coisas. Infelizmente, num mundo em que tudo é tratado como mercadoria, não admira que a própria justiça social também tenha se tornado uma mercadoria e seja vendida, em vários sabores, por corporações que competem por quotas, no mercado da compaixão. Essas empresas têm feito um trabalho maravilhoso no sentido de nos convencer de que participar de toda luta moral, inclusive, e particularmente, da luta pelos animais, significa mandar um cheque para elas. Num mundo em que aceitamos mil diferentes hierarquias sem sequer nos dar conta, e sem sequer questionar o próprio conceito de hierarquia, pensamos que precisamos de líderes para nos mostrar por onde ir. Geralmente, tais líderes são os executivos das empresas de compaixão. E meramente discordar de suas declarações é ser rotulado como “purista”, “elitista”, “divisionista”, como alguém que dá “pancadas”, ou que “vilipendia”, ou que “não liga para o sofrimento animal”, etc., etc., etc. No meu entender, esse modo de pensar é um obstáculo no caminho para a realização do nosso objetivo. Não vamos progredir, fazendo reparos de fachada. Não vamos progredir, promovendo ovos de aves livres de gaiolas, carne “feliz” ou leite orgânico. Não vamos progredir, ficando nus dentro de jaulas e proclamando que, “em nome dos animais”, estamos cedendo ao sexismo que corrói insidiosamente a nossa cultura. Toda essa abordagem é um mero reforço à noção de que podemos superar a injustiça consumindo-a; de que podemos permutar uma forma de exploração pela outra; de que podemos comprar compaixão. Não podemos. Num mundo onde mulheres, pessoas de cor, crianças, idosos, deficientes mentais, pessoas pobres e outros humanos são tratados como cidadãos de segunda classe (quando muito) pelo seleto patriarcado que está no comando, os animais não-humanos são, em muitos aspectos, os seres mais vulneráveis entre nós. Não só podemos torturá-los e matá-los com completa impunidade, como também se espera que façamos isso. Embora a violência contra outro humano possa incorrer em alguma forma de crítica social ou mesmo uma sanção penal, a violência contra os não-humanos geralmente é considerada uma virtude, particularmente quando declarada “humanitária”. Quem se recusa a participar da carnificina é considerado anormal e antissocial –até mesmo, e particularmente, pelas grandes organizações de defesa animal que proclamam que abster-se de todos os produtos animais e promover o veganismo como base moral é “extremo” ou exagerado. Está errado caracterizar fazendeiros, vivissectores ou peleiros como nossos “inimigos”. Eles estão apenas atendendo a nossa demanda. Estão simplesmente fazendo o que nós queremos que façam. Não são eles o problema –e, sim, nós. A abolição da exploração animal exige uma mudança de paradigma. Exige que rejeitemos a violência em seu nível mais fundamental –onde possamos nos engajar no abolicionismo, não apenas sem qualquer aprovação social, mas, também, com elogios. Exige o reconhecimento de que a violência é inerentemente errada. A abolição da exploração animal exige uma revolução não-violenta –uma revolução do coração. Essa revolução não vai ocorrer como resultado de algum líder. Ela só pode ocorrer dentro de cada um de nós todos. E ela pode ocorrer, se quisermos que ela ocorra. Não precisamos de líderes. Precisamos reconhecer que cada um de nós pode –e deve– tornar-se um líder, se tivermos alguma esperança de resolver essa confusão que chamamos de nosso mundo. Isso começa com o nosso veganismo –não como uma questão de estilo de vida “flexitariano” –mas como um compromisso básico, fundamental e inegociável com a não-violência. O veganismo ético representa nosso compromisso com a noção de que nós não temos nenhuma justificativa moral para usar animais para os nossos propósitos –por mais “humanitária” que seja nossa maneira de usá-los. E depois continua com os nossos esforços diários para educar os outros sobre o veganismo, de maneira criativa, positiva e não-violenta –algo que cada um de nós é capaz de fazer, se quiser. Todos os dias temos oportunidades para educar familiares, amigos e colegas de trabalho, além de pessoas que encontramos em uma loja ou um ônibus. É mais fácil mandar um cheque para outra pessoa do que fazer, nós mesmos, o trabalho? Claro que é. Mas isso não vai funcionar. Para conseguirmos justiça, não precisamos de corporações. De fato, quanto mais nos fiamos nelas, mais desviamos do nosso objetivo. Precisamos de um movimento de base que exija paz de um modo pacífico. Infelizmente, as organizações de defesa animal se tornaram modernas vendedoras de indulgências, semelhantes à Igreja Católica medieval. Muitas pessoas –talvez a maioria delas– têm alguma preocupação com o tema da exploração animal. Muitas sentem uma incômoda culpa por continuarem consumindo produtos animais. Muitas amam seus companheiros não-humanos e os tratam como membros de suas famílias, mas enfiam garfos em outros animais e, em algum nível, reconhecem a incoerência moral. Mas, não é preciso se preocupar... Faça uma doação e esses grupos vão melhorar tudo. Ele vão “minimizar” o sofrimento animal; vão “abolir” os piores abusos. Na minha opinião, assim como comprar uma indulgência da Igreja não vai manter você livre do inferno caso exista inferno, comprar, de alguma organização, algumas quotas de compaixão referentes a ovos de aves livres de gaiola não vai manter os animais livres do inferno que, certamente, existe para eles no dia a dia, e no qual eles sofrem e morrem. Precisamos mudar o modo como os humanos pensam sobre os não-humanos; precisamos mudar o modo como os humanos pensam sobre a violência. Quer se trate de guerras para atingir a paz, ou de sexismo para atingir a igualdade de gêneros, ou ainda de tortura mais “humanitária” de animais para obter uma maior conscientização sobre eles, precisamos desafiar a própria noção de que a violência pode ser usada como um meio para algum fim louvável. Por favor, entendam que eu não estou dizendo que as pessoas envolvidas nos grupos bem-estaristas ou neobem-estaristas não sejam sinceras. Faz tanto tempo que ouvimos dizerem que esse é o único caminho. Que ou é a reforma bem-estarista, ou nada. Não estou fazendo nenhum julgamento moral a respeito dessas pessoas como indivíduos, assim como espero que elas não estejam fazendo um julgamento moral a meu respeito, mesmo que elas discordem vigorosamente da abordagem dos direitos animais abolicionista que eu desenvolvi e tenho defendido. Eu apenas discordo delas, e indico a presente situação como uma prova convincente de que a abordagem delas simplesmente não está funcionando. Se alguém acha que estes comentários estão “dando pancadas” em alguém ou “vilipendiando” alguém, por favor saiba que, certamente, esta não foi minha intenção. P.S.: Isto foi noticiado hoje, no Huffington Post. Qualquer pessoa que pensar que isto esteja ajudando os animais está, eu respeitosamente opino, enganado. Nós jamais cessaremos a exploração animal promovendo a exploração das mulheres. 2009 Copyright © Ánima — Direitos reservados | Informação legal
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