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Simon o sádico, Jeffrey Dahmer, a Liga contra esportes cruéis e o Centro “Oxford” para o bem-estar animal
Centro de estudos
para a teoria e prática
dos Direitos Animais
©
Gary L. Francione
© Tradução: Regina Rheda © Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
18 de abril de 2007
Em setembro de 2007, duas organizações do bem-estar animal, a League Against Cruel Sports e o Oxford Centre for Animal Ethics, realizarão uma “conferência internacional sobre a relação entre o abuso de animais e a violência humana”. Embora a conferência vá ser na Universidade de Oxford, o Centro Oxford para a ética animal, segundo o assistente do diretor de assuntos públicos da Universidade de Oxford, “não é um centro oficial ou afiliado” à universidade.
As informações fornecidas sobre a conferência estabelecem:
“A conferência destacará a importância da ética animal através do exame das seguintes questões:
• Há evidência empírica de uma ligação entre o abuso de animais e a violência contra humanos ou o comportamento anti-social?
• Como deveríamos interpretar a evidência?
• Se existir uma ligação, quais são as implicações éticas?
• Quais as implicações para a política social e legal?”
“O objetivo da conferência é capacitar as pessoas a compreenderem melhor a natureza do abuso de animais, a motivação que leva a atos cruéis e as implicações para o bem-estar humano, assim como para o bem-estar animal”. Uma ‘área-chave da pesquisa’ do Centro ‘é a ligação entre o abuso de animais e a violência humana’”.
Há dois problemas — sérios e inter-relacionados — em se abordar a ética animal deste modo.
Primeiro, ligar a ética animal à violência contra humanos representa um retorno à forma como pensávamos sobre a condição moral dos animais antes do advento do bem-estar animal no século 19.
Antes do século 19, a visão predominante, pelos menos no Ocidente, era a de que os não-humanos estavam totalmente fora da comunidade moral, e que nem nosso uso deles, nem o tratamento que lhes dávamos suscitavam preocupação moral ou legal. Ou seja, nós podíamos usá-los para qualquer propósito que quiséssemos e podíamos lhes infligir a dor e o sofrimento correspondentes a esses usos, sem suscitar qualquer questão moral ou legal. Os não-humanos eram considerados coisas indistinguíveis de objetos inanimados, para com os quais não podíamos ter obrigações morais ou legais. Embora pudéssemos ter uma obrigação concernente aos animais — como uma obrigação de não machucar a vaca do nosso vizinho — esta era uma obrigação que tínhamos para com o nosso vizinho de não danificar a propriedade dele, e não tinha nada a ver com termos obrigações para com a própria vaca.
No caso (limitado) de se pensar que o tratamento cruel dos animais pudesse suscitar uma questão moral, isto se devia somente à preocupação de que os humanos que abusavam de animais eram mais capazes de maltratar outros humanos. Santo Tomás de Aquino, John Locke, Immanuel Kant e outras pessoas argumentavam que era errado infligir crueldade gratuita aos animais porque isto aumentava a possibilidade de sermos cruéis uns com os outros. Mas isso não tinha nada a ver com o reconhecimento de que os animais têm valor moral. Isso tinha a ver com a preocupação com os humanos, e com a ligação entre o tratamento cruel dos animais e o conseqüente abuso de outros humanos.
Essa conferência está examinando se o abuso de animais está relacionado com o abuso de humanos. E se estiver relacionado? Se sim, isso pode fornecer um bom argumento para se fazer mudanças modestas em leis anticrueldade, ou para se proporcionar aconselhamento a adolescentes que tenham sido declarados culpados pela tortura de cães e gatos, porque estamos preocupados com um possível comportamento anti-social no futuro.
Mas o que isso tem a ver com os animais? O que isso diz sobre a condição moral dos animais?
Claro que a resposta é que isso não diz nada que vá além daquilo que foi dito antes do século 19 — que a principal razão para nos preocuparmos com a crueldade contra os animais é que quem maltrata os animais é mais capaz de maltratar outros humanos. Isto poderia sustentar uma obrigação moral ou legal de não tratarmos os animais de uma maneira “cruel”, mas esta não seria uma obrigação que teríamos para com os animais como membros da comunidade moral — nós a teríamos para com outros humanos.
Isso não representa um passo adiante no modo de se pensar sobre a ética animal; ao contrário, é um grande passo para trás. Essa abordagem nos afasta mais ainda da noção do valor inerente dos animais, e nos deixa mais próximos da noção de que os animais têm valor apenas extrínseco, o qual depende principalmente do modo como seu uso e tratamento afeta os humanos.
Segundo, e mais importante, ligar o abuso de animais à violência humana envolve um definição muito limitada do que constitui um “abuso”. Nossa tendência é nos concentrar em atos extremos, praticados por um número pequeno de indivíduos, e não reconhecer que nosso uso de animais em contextos institucionalizados aceitos pela sociedade também representa um “abuso”.
Em outras palavras: nós restringimos o “abuso” de animais ao humano perturbado que tortura um cachorro “para se divertir” e ignoramos o fato de que qualquer pessoa que consome qualquer produto de origem animal também está praticando um “abuso” que não difere daquilo que é feito pelo torturador do cachorro.
Para você entender este ponto, deixe-me apresentá-lo a Simon, o sádico, que apareceu pela primeira vez em meu livro Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?
Vamos imaginar um encontro com Simon, que está torturando um cachorro com a chama de um maçarico. A única razão para Simon torturar o cachorro é que Simon obtém prazer a partir desse tipo de atividade.
Ele é exatamente o tipo de pessoa que desperta o interesse daquelas que estão preocupadas com a ligação entre o “abuso” de animais e a violência humana.
Por quê? O que Simon está fazendo de tão preocupante?
Simon está violando uma regra moral e legal com a qual praticamente todo mundo concorda — que é errado infligir sofrimento ou morte desnecessários aos animais. E o que queremos dizer com “desnecessários”? Queremos dizer que é errado infligir sofrimento ou morte aos animais meramente porque isto nos dá prazer ou porque achamos divertido. Simon está infligindo sofrimento e morte desnecessários ao cachorro; ele está torturando um animal sem razão nenhuma, a não ser seu prazer e diversão.
O problema é: em que Simon é diferente de todo mundo que come carne, laticínio ou ovo?
Matamos mais de 50 bilhões de animais todo ano (no mundo inteiro) para comida. Não há a menor dúvida de que os alimentos de origem animal envolvem dor, sofrimento e morte em proporções gigantescas. Alimentos de origem animal produzidos nas circunstâncias mais “humanitárias” possíveis envolvem tratar esses animais de formas que, se fossem aplicadas a humanos, constituiriam tortura.
Ninguém afirma que nós temos de comer alimentos de origem animal para ter ótima saúde. Na verdade, os profissionais de saúde do mainstream são cada vez mais da opinião de que os alimentos de origem animal são prejudiciais à saúde humana. E a criação de animais para consumo é um desastre para o meio ambiente.
Qual a melhor justificativa que temos para infligir dor, sofrimento e morte a 50 bilhões de não-humanos sencientes?
Resposta: nós achamos gostoso o sabor dos produtos de origem animal. Nosso uso dos animais nos causa prazer, muito embora esse uso não seja necessário.
Então, em que somos diferentes de Simon, o sádico?
Resposta: não somos diferentes.
Pagamos outras pessoas para matarem os animais e prepararem sua carne, seu leite e seus ovos, que achamos gostosos. Mas e daí? Continuamos sendo tão moralmente responsáveis quanto Simon, o sádico. Só que somos em maior número e nossas ações são consideradas aceitáveis.
Há duas semanas, assisti a uma entrevista na televisão com o falecido Jeffrey Dahmer, enfocando o desenvolvimento de sua compulsão por violência, a qual acabou em assassinato e canibalismo. Dahmer descreveu como matava e mutilava animais, quando era jovem. Ele observou, meio nostálgico, que as coisas teriam sido tão diferentes, se ele ao menos tivesse sido capaz de canalizar aquele impulso para uma ocupação aceitável, como a taxidermia. Se os impulsos violentos de Dahmer pudessem ter sido satisfeitos com a matança de não-humanos, o que os especialistas em ética teriam a dizer? Os cientistas sociais notaram que a incidência de estupros diminui durante a temporada de caça.
O problema da conferência patrocinada pela Liga e o Centro “Oxford” é que ela sugere que existe uma diferença entre Simon, o sádico, que “abusa” de animais, e as pessoas que não são veganas, isto é, que participam da atividade “normal” de comer produtos animais. Eu desconfio que muitas pessoas na conferência não serão veganas. Esses não-veganos, que participam da exploração animal socialmente aceita, vão ficar lá sentados, falando sobre gente como Simon, o sádico, que participa de “abusos” de animais, e não vão compreender a ironia da situação.
Essa conferência meramente reforça um mito perigoso, mas também essencial para a ilusão do bem-estar animal — o mito de que o “abuso” de animais é uma coisa que somente outras pessoas praticam.
É extremamente difícil — talvez impossível — não sermos ao menos cúmplices indiretos da exploração animal, como consumidores em uma sociedade sustentada pela exploração dos não-humanos; contudo, podemos estar seguros de que, se não formos veganos, certamente somos exploradores de animais. Não há qualquer distinção lógica ou moral entre a pessoa que queima um cachorro com um maçarico para se divertir e a pessoa que come o hambúrguer ou a pizza com queijo ou o sorvete ou o ovo. A única diferença é que queimar o cachorro com o maçarico é chamado de “abuso” e comer produtos de origem animal é chamado de “normal”.
Pense nisso.
2007
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