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Igualdade e semelhança entre humanos e não-humanos

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dos Direitos Animais

 

 

© Gary L. Francione

© Tradução: Regina Rheda © Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
6 de outubro de 2007

Paola Cavalieri, co-editora com Peter Singer do livro The Great Ape Project: Equality Beyond Humanity, escreveu um ensaio sobre a morte de Johnny, um chimpanzé de pouco mais de quarenta anos, que foi baleado recentemente no zoológico Whipsnade, em Bedfordshire, ao norte de Londres. Segundo Cavalieri, Johnny foi morto porque havia sido descrito como “um pequeno capanga” por funcionários que cuidam de animais. O Times afirma que Johnny e uma fêmea, Koko, escaparam e Koko “se entregou a um funcionário em um campo ali perto”, ao passo que Johnny aparentemente não, e tomou-se a decisão de lhe dar um tiro por razões de “segurança pública”.

A morte de Johnny foi uma tragédia terrível em vários níveis. Primeiro, Johnny viveu durante décadas em um zoológico que, mesmo nas melhores circunstâncias, não passa de uma patética prisão para os não-humanos ali mantidos. Antes de serem transferidos para Bedfordshire, no ano passado, Johnny e Koko estavam aprisionados no zoológico Regent’s Park, em Londres. Não há qualquer comparação entre a vida normal dos chimpanzés na natureza e as condições em que eles são mantidos nesses freak shows de não-humanos que chamamos de zoológicos. Segundo, não está claro por que, se Johnny estava resistindo à sua captura, ele não poderia ter sido alvejado com um sedativo, embora algumas pessoas tenham dito que ele ainda ofereceria perigo aos visitantes do zoológico até o sedativo fazer efeito.

Cavalieri tem o cuidado de rejeitar a “abordagem hierárquica”, segundo a qual “a vida interior dos humanos é mais rica, o que lhes dá direito a ser considerados com mais seriedade no plano moral”. Essa abordagem, ela afirma, levaria à idéia de que “poderíamos tratar de modo diferente aqueles humanos que são intelectualmente deficientes”. Mas o foco principal de seu argumento é que “chimpanzés, gorilas e orangotangos são nossos parentes mais próximos, compartilhando 98-99% de nosso DNA, e a categoria ‘grandes símios’ é uma categoria natural apenas contanto que inclua humanos”. Cavalieri afirma que os chimpanzés são “semelhantes a nós” pois eles se parecem conosco no plano cognitivo e, como nós, eles realmente têm uma “vida interior mais rica”. Eles são capazes de atos complexos de cooperação e manipulação social; de transmissão cultural, incluindo o ensino de certas habilidades, tais como fazer e usar instrumentos; eles têm a faculdade da razão, a qual “há tanto tempo se considera a marca da nossa superioridade”; eles podem usar comunicação simbólica; e têm consciência de si reflexiva.

Tenho quatro comentários a fazer, em resposta à análise de Cavalieri:

Primeiro, é problemático pressupor que os humanos tenham uma “vida interior mais rica” e que os não-humanos sejam, de alguma forma, análogos a “humanos intelectualmente deficientes”. Cada espécie tem um tipo de vida que é valorizado pelos membros da espécie. Eu não faço a menor idéia se meus caninos refugiados têm vidas menos “ricas” do que a minha. Sequer sei o que isso significa. Minha vida interior pode ser diferente da vida de um cachorro ou de um camundongo, mas isso não significa que a minha vida seja mais “rica”.

Eu entendo o argumento de que, se a falta de uma característica moralmente superior em um não-humano nos autorizar a conferir a esse não-humano menos—ou nenhuma—consideração moral, então, a menos que estejamos dispostos a ser especistas, deveremos tratar da mesma forma os humanos em uma situação semelhante, tais como aqueles que são “intelectualmente deficientes”. Mas o problema é que nós já pressupomos que os humanos tenham características moralmente superiores e que, portanto, a vida humana seja “mais rica” do que a vida não-humana. Essa é uma falácia comum entre muitos especialistas em ética animal, inclusive Tom Regan. Conforme discuti em um ensaio na New Scientist, não há nenhuma razão para pressupormos que as características tidas como exclusivamente humanas nos autorizem a tirar a conclusão normativa de que aqueles que possuem essas características têm vidas “mais ricas”.

Segundo, a “abordagem hierárquica” não apresenta nenhum problema para utilitaristas como Singer, que estaria disposto a dar menos consideração moral a humanos “intelectualmente deficientes”.

Terceiro, o fato de todos nós entendermos, há muito tempo, o quanto os chimpanzés e outros grandes símios não-humanos são semelhantes a nós, e ainda assim continuarmos a tratá-los como recursos ou mercadorias, indica que a “semelhança” é um conceito vago que não ajuda muito no sentido de mudar o comportamento humano. Conforme argumentei em Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?, o jogo da “semelhança” é um jogo que os não-humanos nunca vencem. Se quisermos continuar a explorar os animais não-humanos, jamais os consideraremos possuidores da tal característica “especial” em grau suficiente para nos fazer parar de explorá-los. É perda de tempo achar que a solução para o problema da exploração animal é mandar os etólogos cognitivos fazer experimentos (que, ironicamente, podem envolver a vivissecção) a fim de mostrar até que ponto os grandes símios não-humanos e outros primatas, além dos golfinhos, os papagaios, e etc., possuem alguma característica “especial”. O problema não é a semelhança empírica; o problema é a teoria moral. Jane Goodall, que escreveu o primeiro capítulo do The Great Ape Project [Projeto Grande Símio] sabe, melhor do que qualquer um de nós, o quanto os grandes símios não-humanos se assemelham aos grandes símios humanos; mesmo assim, ela não está disposta a condenar de forma inequívoca o uso de todos os grandes símios não-humanos na pesquisa biomédica e a reivindicar sua imediata abolição.

Quarto, conforme argumentei no meu capítulo do The Great Ape Project e venho repetindo desde então, o direito a ser membro integral da comunidade moral e a não ser tratado como propriedade depende de uma única característica—a senciência. Se um não-humano é senciente, então nós temos a obrigação moral de não tratar esse ser como um recurso ou uma mercadoria. O cachorro talvez não tenha o mesmo tipo de consciência de si reflexiva que o chimpanzé, mas ambos têm os interesses fundamentais em viver e em não sofrer, portanto ambos são iguais para o propósito de não terem seus interesses fundamentais desconsiderados se isto beneficiar os outros.

Há animais sendo mortos diariamente em zoológicos (e em muitos, muitos outros lugares) por várias razões. A morte do pobre Johnny foi indubitavelmente trágica, mas igualmente trágicas são também as mortes dos não-humanos que não são “semelhantes” a nós da mesma maneira que Johnny era, mas que têm consciência subjetiva e valorizam suas vidas à sua própria maneira.

Torne-se vegano(a), nunca freqüente nem apóie zoológicos e resista à criação de novas hierarquias baseadas em valores antropocêntricos.

Os humanos não são a medida das coisas; somos apenas uma medida dentre muitas.

2008

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