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Em defesa de Mark Bittman

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© Gary L. Francione

© Tradução: Regina Rheda © 2009 Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
31 de julho de 2009

Caros(as) colegas:

Na primavera de 2009, Mark Bittman, que escreve sobre comida para o New York Times, publicou que:

Durante o dia, ele tem uma dieta vegana. Mas, de mais ou menos 6 da tarde em diante, vale tudo.

E depois, em julho de 2009, Bittman publicou que, treinando para a maratona da cidade de Nova York, foi aconselhado a ingerir mais proteína animal porque isso seria necessário. Então, como ele diz:

comecei a comer uma “proteína concentrada”, normalmente tofu, uma lata de sardinha, um ovo misturado com o que mais eu estiver comendo, ou algo igualmente simples, logo depois das corridas de seis milhas ou corridas mais longas.

E hoje Bittman nos informou que se afastou mais um passo, ainda, do veganismo (que, aliás, nem era veganismo) porque, preparando um prato de grãos “quase vegano” para o café da manhã, acrescentou

molho de peixe fermentado (não-vegano, mas uma colher de chá, e juro que isso deu o toque final –embora o prato ficasse bom sem o molho).

Agora, há pessoas envolvidas na defesa dos direitos animais que estão bastante perturbadas com isso. Como Mark Bittman pode afirmar que é vegano, quando parece que ele não é vegano em nenhuma parte do dia —nem antes, nem depois das 6 da tarde?

Desculpem, mas eu preciso defender Bittman aqui.

Por que Bittman não pode se chamar de “vegano”? Afinal de contas, há muitas pessoas não-veganas, na defesa dos direitos animais, que dizem que são veganas.

Considerem Peter Singer, tido por muitos como o “pai do movimento pelos direitos animais”.

Na entrevista de maio de 2006 para a Mother Jones, Singer declara:

Há um lugarzinho para um pouco de indulgência em todas as nossas vidas. Conheço pessoas que são veganas em seus lares mas que, quando saem para comer num restaurante chique, permitem-se o luxo de não ser veganas naquela noite. Não vejo nada de realmente errado nisso.

Não como carne. Sou vegetariano desde 1971. Tornei-me vegano gradualmente. De um modo geral sou vegano, mas um vegano flexível. Não compro coisas não-veganas para mim, no supermercado. Mas, durante minhas viagens, ou na casa dos outros, terei muito prazer em comer uma comida vegetariana, em vez de vegana.

Ele acha que ser um vegano coerente é ser um “fanático” e declara:

Quando estou fazendo compras para mim, a compra é vegana. Mas quando estou viajando e fica difícil conseguir comida vegana em alguns lugares, sou vegetariano. Não como ovos que não sejam de galinhas soltas, mas, se eles forem de galinhas soltas, eu como. Não peço um prato cheio de queijo, mas também não fico preocupado se, por exemplo, um prato indiano de vegetais ao curry tiver sido preparado com manteiga.

De fato, Singer argumenta que há momentos em que temos a obrigação moral de não ser veganos:

Então, quando você está comendo com alguém em um restaurante e você pede um prato vegano, mas esse prato vem com um pouquinho de queijo ralado ou coisa assim por cima, às vezes os veganos criam o maior caso e devolvem o prato, e isso pode significar um desperdício de comida. E se você está na companhia de pessoas que não são veganas, ou sequer vegetarianas, eu acho que é provavelmente errado fazer isso. É melhor simplesmente comer, porque senão as pessoas vão pensar: “Ai meu deus, esses veganos…”.

Singer declara:

É muito difícil ser um onívoro consciencioso e evitar todos os problemas éticos, mas se der para a gente ser realmente bem rigoroso quanto a comer apenas animais que viveram boas vidas, esta pode ser uma posição ética defensável.

Ele pensa que é moralmente aceitável se conceder o

luxo de comer ovos de aves criadas soltas, ou possivelmente até carnes de animais que vivem uma boa vida em condições naturais para suas espécies e depois são mortos humanitariamente na fazenda. (The Vegan, outono de 2006.)

Em essência, segundo esse ponto de vista, o veganismo é apenas um meio de reduzir o sofrimento. Se você está comendo para reduzir o sofrimento, então você não precisa realmente se preocupar muito com os ingredientes daquilo que você está comendo. O Vegan Outreach declara que a ética de comer

não é um fim em si mesma. Não é um dogma ou uma religião, nem uma lista de ingredientes proibidos ou leis imutáveis —é somente uma ferramenta para nos opormos à crueldade e reduzirmos o sofrimento.

Isso reflete a afirmação muito explícita de Singer de a questão toda é só o sofrimento. Ele declara que as pessoas pensam

que no Libertação animal eu disse que matar animais é sempre errado e essa era, de algum modo, a base para o vegetarianismo ou o veganismo. Mas se essas pessoas voltarem a dar uma olhada no Libertação animal, elas não vão encontrar esse argumento.

Segundo ninguém menos do que a própria autoridade Singer, o veganismo não é nenhum tipo de compromisso de não comer nem usar produtos animais; é simplesmente um meio de reduzir o sofrimento, assim como os ovos produzidos por aves livres de gaiolas de bateria, os cercados mais amplos e as jaulas maiores.

Então, se Bittman está comendo menos produtos animais, e com isso está reduzindo o sofrimento, por que não pode desfrutar o “luxo” de comer alguns produtos animais e evitar ser “fanático”, conforme Singer aconselha, e ainda se chamar de vegano?

A resposta, evidentemente, é que ele pode.

Qual a diferença entre o que Bittman está fazendo e o que estão fazendo as pessoas que Singer descreve como “veganas em seus lares mas que, quando saem para comer num restaurante chique, permitem-se o luxo de não ser veganas naquela noite”?

Não há nenhuma diferença.

Qual a diferença entre Bittman e Singer, que comerá ovos de aves criadas soltas, manteiga, etc.?

Não há nenhuma diferença.

Portanto não é razoável criticar Bittman. Ele está somente se comportando como o pessoal dos “direitos animais”.

Por favor, deixem-me dizer que eu não questiono, de forma alguma, a sinceridade de Peter Singer, do Vegan Outreach, etc. No entanto, acho realmente que seus pontos de vista são terrivelmente confusos, e discordo deles num nível fundamental.

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OBSERVAÇÃO: Algumas pessoas me escreveram perguntando por que estou defendendo Mark Bittman, já que molho de peixe fermentado não é vegano. Primeiro, eu pensei que essas pessoas estivessem brincando, mas acho que talvez haja alguma confusão de verdade por aí.

Então deixem-me esclarecer:

Eu não estou dizendo que seja certo Mark Bittman comer peixe ou qualquer outro produto animal. O que eu quis dizer foi que Peter Singer, que muitos defensores dos animais consideram a fonte de toda a sabedoria no campo da ética animal, é um vegano “flexível” que come produtos animais, que fala sobre o “luxo” de comer carnes e laticínios, e que declara que comer produtos animais é uma “indulgência” permissível. Meu ponto é que se nós não nos opusermos a Singer quando ele fala isso, não devemos responder de modo diferente quando Bittman fala o que falou. Eu de fato me oponho ao que Singer diz (e assim sou estigmatizado como “divisionista” porque não é permitido discordar). Eu estava usando ironia aqui. Peço sinceras desculpas se isso tiver causado confusão.

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