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Ellen Degeneres e Iggy, a “coisa”
© Gary L. Francione © Tradução: Regina Rheda © Ediciones Ánima Em seu programa de variedades de 16 de outubro, a famosa comediante americana Ellen DeGeneres contou ao seu público – e ao mundo – que havia adotado um cachorro, Iggy, em setembro. E alegou que, como Iggy não se deu bem com seus gatos, ela o deu à sua cabeleireira, que tem duas filhas que o queriam. Isso aparentemente violou o contrato de adoção usado pelo grupo de proteção animal Mutts and Moms, junto ao qual Ellen havia adotado Iggy, porque o contrato, ao que parece, exigia que ela lhes devolvesse o cachorro, caso não o quisesse mais. O grupo, então, levou Iggy embora da casa da cabeleireira. Ellen DeGeneres ficou arrasada e, aos soluços, implorou ao Mutts and Moms que eles devolvessem o cachorro às filhas de sua cabeleireira. A história de “Iggy” gerou uma tempestade na mídia e tem sido manchete nos últimos dias nos Estados Unidos, inclusive em quase todos os noticiários de maior evidência. Segundo o advogado do Mutts and Moms, o grupo de proteção recebeu ameaças de morte. O advogado divulgou algumas mensagens telefônicas em que uma representante de Ellen DeGeneres ameaçava processar o grupo e fazer má publicidade dele, caso Iggy não fosse devolvido à cabeleireira de Ellen. A última notícia é que Iggy está vivendo com uma outra família arranjada pelo Mutts and Moms. Fico feliz por saber que as coisas aparentemente deram certo para o Iggyzinho. Eu compreendo a preocupação dos grupos de proteção animal como o Mutts and Moms. Há pessoas que adotam animais e depois os abandonam na beira da estrada ou num abrigo que poderá matá-los, ou os levam a um veterinário para que eles sejam mortos, porque elas não querem mais ficar com eles. Há até pessoas que vendem animais adotados para a pesquisa biomédica. Durante os anos em que fui advogado para questões concernentes a animais não-humanos, tratei com muitos grupos protetores que, em seus contratos de adoção, estavam tentando usar uma linguagem que protegesse os animais sem deixar o contrato exigente demais, porque senão as pessoas potencialmente interessadas na adoção poderiam se recusar a assiná-lo e preferir comprar um animal numa pet shop. Por exemplo, lembro-me de grupos de proteção que tinham uma cláusula em seus contratos dando-lhes o direito de entrar na casa da pessoa que adotou o animal a qualquer hora do dia ou da noite, 365 dias por ano, para ver se o animal estava sendo bem cuidado, mesmo se os grupos não tivessem uma razão em particular para ter dúvidas. Há muito poucas pessoas que aceitariam essas condições, mesmo querendo adotar um não-humano. É necessário haver um equilíbrio entre proteger os animais e conseguir lares para as centenas de milhares de animais que precisam ser adotados. Só no website Petfinder, há, hoje, 265.000 não-humanos necessitando de um lar. O problema é enorme. No caso de Ellen DeGeneres, provavelmente os dois lados têm culpa. Eu acho que Ellen agiu mal, ao não fazer o que era preciso para que Iggy e seus gatos se dessem bem juntos. Ela mora em Los Angeles e tem meios para contratar alguém como Cesar Millan, que certamente poderia tê-la ajudado com isso. E se ela estava com a intenção de se livrar de Iggy, eu não entendo por que ela não podia ter avisado o Mutts and Moms primeiro, para facilitar a transferência do cachorro para sua cabeleireira. Por outro lado, também não entendo por que o Mutts and Moms reagiu de uma maneira aparentemente tão rabugenta, tomando Iggy da família da cabeleireira por uma questão de princípios. Se Iggy estava em um bom lar, então, dado que há milhões de não-humanos necessitando de lares, teria sido melhor deixá-lo lá e concentrar energia nos outros animais. E eu estou absolutamente enojado com o fato de que qualquer pessoa que diga se importar com os não-humanos possa ameaçar o Mutts and Moms de morte ou de qualquer outro tipo de violência. Fiquei impressionado, entretanto, com o fato de Ellen DeGeneres constantemente se referir a Iggy como “it”. [Aqui, o pronome pessoal da língua inglesa “it” se refere a uma coisa, ou àquilo que os humanos tentam distinguir dos seres conscientes para os quais usam pronomes como “he”, “him”, etc.]. Por que ela se referia a um “him” como um “it”, particularmente levando-se em conta que, quando ela falava sobre a história de Iggy, ela dizia “Eu amo os animais. Eu amo os animais”? Então eu comecei a ler as várias páginas do website de Ellen DeGeneres e descobri que ela faz um relatório quase diário de tudo que Sean, seu cozinheiro pessoal, prepara para seu almoço. O cardápio inclui: - “salmão pescado com vara no Rio Colúmbia, levemente salgado e frito em frigideira”; - “filé orgânico de bovino criado solto e alimentado com capim no estado de Nova York”; - “coxa de frango lindamente temperada, frita só para dourar e depois cozida ao forno com figos frescos e cebola”; - “ensopado de frutos do mar com camarão, caranguejo, molusco e lagosta”; - “delicioso bacalhau au gratin. Um prato clássico de bacalhau do nordeste do Atlântico, cozido ao forno em molho bechamel com queijo cheddar canadense orgânico e migalhas de pão torrado, e em seguida assado em altíssima temperatura só durante o tempo necessário para o queijo ficar perfeitamente pastoso; - “linda costela de carneiro do Colorado, depois de separar as costeletas e limpar os ossos”; - “salada-sanduíche orgânica de frango com nozes, aipo, cranberries e broto de alfafa sobre um pão feito com 14 tipos de grãos”; - “peito de frango – criado solto, localmente e de maneira orgânica – à milanesa (quando eu digo localmente, eu quero dizer que acho que o frango pode ter sido meu vizinho). O peito de frango é amaciado com o martelo de bater carne, depois envolto na farinha de rosca e frito para dourar, sendo então colocado no forno com molho de tomate e manjericão, queijo mussarela e só um pouquinho de parmesão”. (O “vizinho” dela?); - “porco assado com recheio de cranberries, cebola, aipo, pistache e migalhas de pão integral temperadas com vinho do porto e concentrado de cebolinhas”; - “mini-filé mignon servido com um delicioso molho de manteiga e manjericão”; - “salada de atum voador ao limão, guarnecida com abacates e temperada com molho vinagrete picante e cremoso”; - “salada de verduras do jardim de meu escritório com um pouco de frango grelhado ao limão que eu mesma preparei na minha grelha portátil” e uma salada de espinafre “guarnecida, como você pode ver, com uma porção de atum pescado de um cardume que estava começando a nadar rumo ao sul para o inverno”; e - uma “adorável salada de atum, rodeada por deliciosas fatias de tomate caseiro picante”. E isso é apenas o que está no site hoje. Só nos resta especular sobre quais os corpos e as secreções de animais que Sean está reservando para os próximos meses. Eu acho absolutamente fascinante, e um pouco bizarro, o fato de o público se importar com o que DeGeneres come no almoço, ou, pelo menos, de ela pensar que esse seja o caso. Mais importante ainda, fico perplexo com o fato de que ela possa aparecer na televisão para o país inteiro, chorando por causa de Iggy, mas não ligue a mínima para os não-humanos sencientes, ou conscientes de si mesmos, que Sean está preparando para ela comer. Em algum nível, Ellen DeGeneres obviamente se importa com os não-humanos. Mas alguma coisa está errada. Talvez um sinal de sua esquizofrenia moral se encontre no fato dela usar bastante o “it” para descrever Iggy. No fim das contas, os não-humanos são apenas coisas—“its”. Em um nível, ela reconhece que Iggy tem atributos de pessoa. Mas ela está chorando por causa de um “it” que não é realmente diferente dos outros “its” que ela acha admissível explorar. Ellen DeGeneres obviamente não é imbecil. Por que ela não pode fazer a conexão? Vamos lá, Ellen, torne-se vegana. 2008 Copyright © Ánima — Direitos reservados | Informação legal
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