![]() |
|
|||
Alguns comentários sobre o editorial de Kristof a favor da “Carne feliz”
© Gary L. Francione © Tradução: Regina Rheda © 2009 Ediciones Ánima Caros(as) colegas: Hoje o New York Times publicou um editorial de Nicholas D. Kristof. O editorial é uma ode ao bem-estar animal e ao suposto progresso ético que estaria sendo evidenciado pelas reformas bem-estaristas. Perdoem-me por não compartilhar o entusiasmo do senhor Kristof. Em vez de responder ponto por ponto, vou me limitar a três comentários gerais. Primeiro, os exemplos que Kristof aponta seriam os melhores candidatos num concurso para identificar as reformas bem-estaristas mais fúteis da história contemporânea. Eles incluem a Proposição 2 da Califórnia, a diretriz da Comissão Europeia concernente aos ovos de bateria e a ímpia aliança entre os grupos de defesa dos direitos animais e o Burger King. Escrevi sobre todas essas reformas em ensaios precedentes e argumentei que elas não vão fazer nada para ajudar os animais. Segundo, citando essas diferentes reformas ligadas à “carne feliz”, Kristof declara:
É uma declaração espantosa. O senhor Kristof parece não saber que o jainismo, uma das três tradições religiosas da Índia e, pode-se argumentar, uma das mais antigas tradições espirituais do mundo, vem afirmando, por alguns milhares de anos, que os animais não-humanos têm valor moral inerente. Os jainas (ou jainistas) sustentam que a observância do princípio da ahimsa, ou não-violência, requer que eles sejam vegetarianos e não comam carne, peixe ou ovos; e os jainas estão adotando cada vez mais a posição do vegetarianismo estrito ou o veganismo. O budismo e o hinduísmo também têm uma forte tradição de vegetarianismo. Então, a despeito dos cumprimentos de Kristof aos bem-estaristas do Ocidente, aqueles de mais “refinada sensibilidade ética” já tinham, há séculos, ido muito além desses desenvolvimentos contemporâneos supostamente progressistas. O senhor Kristof também parece não saber que o bem-estar animal não é nenhuma novidade na civilização ocidental. Temos tido o bem-estar animal como paradigma legal e moral dominante por 200 anos, e agora estamos explorando mais animais, e de modos mais horripilantes, do que em qualquer outra época da história humana. É muito simples: o bem-estar animal não funciona. As regulamentações do bem-estar animal oferecem muito pouca proteção aos interesses dos animais. Isso acontece porque os animais são propriedade; eles são mercadorias. Custa dinheiro proteger os interesses dos animais e, geralmente, só protegemos esses interesses quando isso nos traz benefícios econômicos. Portanto exigiremos que os animais grandes sejam atordoados antes de ser abatidos, para que possamos reduzir os prejuízos à carcaça e limitar os machucados dos empregados no matadouro. Mas, se não obtivermos um benefício econômico a partir da proteção de um interesse do animal, não protegemos esse interesse. É simples assim, e é preciso procurar muito, em todas as partes, para encontrar um único contraexemplo significativo que seja. O bem-estar animal se apoia na noção de que é aceitável usar animais para propósitos humanos porque os animais têm menos valor, no plano moral, do que os humanos. Essa noção está refletida na teoria de Peter Singer, sobre quem Kristof escreve de modo favorável no editorial. A principal exigência do bem-estar animal é que acordemos, aos animais, alguma consideração por seu interesse em não sofrer. Mas, dada a visão de que a vida animal tem pouca ou nenhuma importância moral, não admira que o grau dessa consideração seja muito baixo. Terceiro, apesar das intenções obviamente boas do senhor Kristof, ele passa ao largo do ponto fundamental da questão, que é o de que as reformas ligadas à “carne feliz”, que ele elogia entusiasticamente, irão somente fazer o público se sentir melhor quanto à exploração animal e prosseguir com o consumo de produtos animais. Por exemplo, mesmo se a Proposição 2 da Califórnia entrar em vigor em 2015, os animais na Califórnia continuarão a ser torturados; a única diferença é que a tortura portará o selo de aprovação da Humane Society of the United States, do Farm Sanctuary e das outras corporações de bem-estar animal que promoveram a Proposição 2. O senhor Kristof prova meu argumento. Na penúltima sentença de seu editorial, ele declara: “De minha parte, eu como carne, mas prefiro que essa prática não cause sofrimento gratuito”. Isso diz tudo.
2009 Copyright © Ánima — Direitos reservados | Informação legal
|
|