Ánima
Libertação Textos especializados, abordagem profissional. Entrevistas
 

Libertação > Abordagen > Francione

Algumas ideias sobre o significado de “vegano”

AbordagensCentro de estudos
para a teoria e prática
dos Direitos Animais

 

 

© Gary L. Francione

© Tradução: Regina Rheda © 2009 Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
18 de outubro de 2009

Há muita discussão sobre o que significa “vegano”.

“Veganismo” significa, no mínimo, não comer carne de nenhum tipo, nem laticínio, nem outros produtos animais. Neste sentido, “vegano” se refere à “dieta vegana”. Donald Watson, que originalmente cunhou o termo “vegan” [vegano(a)], usou essa palavra desse modo, quando fez declarações como: “Onde quer que o Homem viva, ele pode ter uma dieta vegana”.

Diferentes pessoas podem ter diferentes razões –razões éticas/espirituais, razões de saúde, razões ambientais– para ter uma dieta vegana. Quem segue a dieta vegana pode também (e por várias razões) se abster do uso de outros produtos animais em contextos que vão além da dieta. Por exemplo, alguém que siga uma dieta vegana pode também não usar produtos animais sobre a própria pele por razões ligadas à saúde –produtos aplicados à pele penetram no corpo. Alguém que siga uma dieta vegana por razões ambientais pode também não usar um determinado produto animal por causa do efeito que a produção desse produto tem no ambiente.

Aqueles que adotam a dieta vegana por razões éticas/espirituais podem também se encaixar em diferentes grupos. Alguns veem sua dieta vegana como um meio de reduzir o sofrimento animal. Isto é, eles não acham errado, em si, matar animais para uso humano, mas acham errado infligir sofrimento aos animais, então eles evitam comer ou usar produtos animais. Se houvesse um modo indolor de criar e matar animais para uso humano, esses veganos éticos não objetariam ao uso de animais. Essas pessoas não estão, necessariamente –e normalmente não são– comprometidas com a abolição da exploração animal, e buscam reformas regulatórias que, acreditam elas (erradamente, a meu ver), reduzirão o sofrimento animal.

O “veganismo ético”, termo que eu uso de modo intercambiável com “veganismo abolicionista”, vai além da dieta vegana e rejeita o consumo direto de animais ou qualquer tipo de uso de animais. Um vegano ético tem uma dieta vegana e se recusa a consumir produtos animais, mas também não veste nem usa nenhum produto animal. Um vegano ético rejeita a coisificação dos animais não-humanos como mercadorias, como propriedade. Um vegano ético é uma pessoa comprometida com a abolição da exploração animal. Além disso, os veganos éticos reconhecem que uma produção de alimentos baseada em animais causa danos a outros humanos, assim como aos não-humanos, e enxergam a conexão que existe entre os direitos humanos e os direitos animais. O veganismo ético é a base moral do movimento de defesa dos direitos animais. O veganismo ético representa um compromisso com a não-violência na vida cotidiana da pessoa.

Na minha experiência, o veganismo ético é o único tipo de abordagem que resulta em um comportamento consistente. As pessoas que são veganas somente por razões de saúde frequentemente “trapaceiam”, do mesmo modo que aquelas que seguem qualquer outra dieta por razões de saúde. As que são veganas por razões ambientais podem não só cometer deslizes, mas também decidir que um produto animal causa menos consequências adversas ao ambiente do que os produtos que não forem de origem animal. Alguém que veja o veganismo somente como um meio de reduzir o sofrimento animal pode comer ou usar um produto animal se achar que, se não fizer isso, mais sofrimento será causado.Por exemplo, algumas pessoas, como Peter Singer e outras, afirmam que devemos comer produtos animais se o fato de não os comermos fizer os outros pensarem que ser vegano é difícil demais e assim desistirem de pensar sobre o veganismo.  Esses veganos, então, tornam-se veganos “flexíveis”, o que, em minha opinião, significa que eles não são realmente veganos. Um vegano ético encara o veganismo como uma abordagem geral da vida –uma filosofia de vida– e não como uma mera questão de estilo de vida.

Um comentário final (por ora): as preocupações com a saúde e o ambiente podem ter um aspecto moral. Por exemplo, quem segue uma dieta vegana pode fazer isso por acreditar que infligir prejuízo físico a seu corpo ao consumir produtos animais seja uma forma de violência (um dano a si mesmo) e seja imoral. Quem segue uma dieta vegana ou se abstém do uso de produtos animais por razões ambientais pode fazer isso não por causa de uma preocupação utilitarista de preservar o ambiente, mas por acreditar que as consequências ambientais afetam humanos e não-humanos diretamente e violam os direitos desses seres sencientes. Um vegano ético ou abolicionista, que enxerga qualquer consumo ou uso de produtos animais como uma violação dos direitos animais, pode também rejeitar produtos animais por razões ligadas à saúde e ao ambiente.

Em suma, as pessoas podem ser veganas por diferentes razões. No meu modo de ver, o veganismo ético ou abolicionista é a única abordagem que resulta em um comportamento consistente. No entanto, devemos ter claro que nenhuma forma de veganismo é consistente com o ato de comer qualquer produto de origem animal. Ou seja, seguir uma “dieta vegana” é o significado mínimo de ser “vegano”. Em minha opinião, “vegana” é a pessoa que não come, não veste, nem usa nenhum produto animal. Mas também é correto dizer que uma pessoa que não come nenhum produto animal segue uma “dieta vegana”. A ausência de produtos animais está sendo explicitamente limitada à dieta. Como eu disse acima, não considero os “veganos flexíveis” veganos e, por definição, eles nem sequer seguem uma dieta vegana.

Logo estarei escrevendo mais extensamente sobre este tópico.

Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É incrivelmente fácil ser vegano(a). É melhor para sua saúde e para o planeta. Mas o mais importante de tudo é que é a coisa moralmente certa a fazer.

Posts relacionados

  1. Algumas ideias sobre a educação vegana
  2. Defeitos congênitos: dieta vegana ou apenas insuficiência de B-12?
  3. Mais algumas reflexões sobre Michael Vick
  4. Reflexões sobre algumas grandes organizações

2009

Libertação > Abordagens > Francione