Ánima
Libertação Textos especializados, abordagem profissional. Entrevistas
 

Libertação > Abordagens

Adeus, Satya

AbordagensCentro de estudos
para a teoria e prática
dos Direitos Animais

 

 

© Gary L. Francione

© Tradução: Regina Rheda © Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
4 de julho de 2007

Quando The Animals’ Agenda parou de ser publicada, em 2002, a Satya passou a ser a principal revista do movimento neobem-estarista, promovendo a fantasia de que a reforma incremental bem-estarista podia oferecer uma proteção significativa aos interesses dos animais, e fazendo de conta que não havia nenhum conflito inerente entre a abordagem abolicionista e a abordagem bem-estarista, na ética animal.

E agora a Satya tomou o mesmo rumo da The Animals’ Agenda e também fechou, parando na edição de junho/julho de 2007. Embora em seu último ano a Satya tenha dedicado algumas de suas páginas a criticar a abordagem reformista, que hoje está mais forte do que nunca, a Satya continuou, de modo geral, sendo uma revista que abraçou, até o último minuto, a abordagem bem-estarista.

Eu sinceramente desejo o melhor a Beth Gould, Cat Clyne, Martin Rowe e todo mundo da Satya, no futuro. Mas fico triste quando penso no que a Satya poderia ter feito, se tivesse sido uma voz clara em defesa da abolição da exploração animal, em vez de desmoronar sob o peso daquele impulso incoerente e esmagador, que tantas pessoas que “se importam com os animais” sentem, de “fazer alguma coisa” a respeito do sofrimento animal, sem se apoiar em uma teoria que indique como essa mudança pode ocorrer.

Em sua mensagem de despedida, Beth Gould, a editora da Satya, afirma que a revista foi planejada para ser uma tribuna livre voltada a “mudar mentalidades de maneira não-violenta”. Gould continua:

É difícil manter esses ideais, quando as evidências de crueldade abundam. É tentador lutar, pegar em armas e discutir, especialmente quando as vitórias tangíveis são tão escassas. Hoje morrem mais animais, desnecessariamente, dolorosamente, do que há 13 anos, quando saiu o primeiro número da nossa revista. Nosso movimento está mais fraturado. Há mais gente disposta a gastar seu tempo discutindo teoria do que criando uma mudança positiva. Mas, também há mais gente como nós do que nunca. Mais gente disposta a se erguer, todos os dias, contra as injustiças.

Eu tenho algumas respostas às observações de Gould:

Primeiro, a violência nunca é uma resposta apropriada ao problema da exploração animal.
Os defensores dos animais deveriam ver o movimento pelos direitos animais como uma extensão do movimento pela paz. Sim, nos dias de hoje há muita violência contra os animais. Nos dias de hoje, há muita violência no mundo, de um modo geral. Há mais racismo, machismo e homofobia do que jamais houve. Uma coisa de que eu tenho certeza é que mais violência não vai resultar em menos violência. Todos nós deveríamos rejeitar a violência. Violência leva apenas a mais violência, conforme demonstra o estado do mundo, hoje.

Segundo, Gould precisa se perguntar por que as vitórias “são tão escassas”, por que as coisas estão piores do que estavam há 13 anos, quando a Satya começou a ser publicada. Talvez ela encontre a resposta nas páginas da própria Satya, que promoveu obstinadamente as reformas bem-estaristas como sendo uma resposta ao problema da exploração animal. As vitórias são escassas porque o bem-estar animal simplesmente não funciona. De modo geral, o bem-estar animal só protege os interesses dos animais se for economicamente vantajoso proteger tais interesses. Isso assegura que toda vitória acabe sendo insignificante. E os últimos doze anos são uma prova incontestável de que o bem-estar animal faz pouco mais do que tornar a exploração animal mais eficiente.

Terceiro, Gould se queixa de que há “mais gente disposta a gastar seu tempo discutindo teoria do que criando uma mudança positiva”. Isso é curioso, para dizer o mínimo. Gould, assim como muitos defensores dos animais, parece não entender que, para identificar uma mudança que seja “positiva”, nós precisamos de uma teoria. Como podemos saber se devemos fazer campanhas por ovos de galinhas “livres de gaiolas”, ou se devemos promover vários programas de selos de “produção humanitária”, sem uma teoria que identifique se essas coisas constituem uma “mudança positiva”?

O movimento de defesa animal nunca teve uma discussão aberta e sólida sobre teoria. Eu concordo com Gould quanto ao fato de que nosso discurso deveria evitar “raiva” e “recriminação”, mas eu discordo dela se ela pensa que podemos identificar uma “mudança positiva” sem o apoio de uma teoria. E o movimento não está “mais fraturado”. O problema é que o movimento está mais homogêneo do que jamais esteve.

Quarto, Gould diz: “Mas, também há mais gente como nós do que nunca. Mais gente disposta a se erguer, todos os dias, contra as injustiças”.

Isso soa bem, mas o que significa? Se Gould quer dizer que há muitas pessoas que se importam com os animais, ela está certa, mas e daí? Já faz alguns séculos que há um bom número de pessoas se importando com os animais.

Mas “se importar”, seja lá o que for isso, não é suficiente.

O movimento de defesa animal nunca fará qualquer diferença até que abrace explicitamente o veganismo como sua base inequívoca e rejeite a noção de que podemos cumprir nossa obrigação moral para com os animais sendo “onívoros conscienciosos”.

Tornar-se vegano é a coisa abolicionista que cada um de nós pode fazer hoje mesmo. Imediatamente. O veganismo é a única resposta coerente à questão da exploração animal, e o veganismo também trata, de modo relevante e produtivo, das questões ligadas à saúde humana e à degradação ambiental. O veganismo é uma parte central da abordagem não-violenta da vida. Cada pessoa que se torna vegana representa uma “vitória” verdadeira, e, se concentrássemos nossos esforços na educação vegana clara e inequívoca, as “vitórias” seriam muito menos “escassas”.

2008

Libertação > Abordagens