Ánima
Libertação Textos especializados, abordagem profissional. Entrevistas
 

Libertação > Abordagen > Francione

A religião da não-violência

AbordagensCentro de estudos
para a teoria e prática
dos Direitos Animais

 

 

© Gary L. Francione

© Tradução: Regina Rheda © 2009 Ediciones Ánima
Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
7 de julho de 2009

Caros(as) colegas:

No último fim de semana, a JAINA (Federação das associações jainistas na América do Norte) realizou sua 15a. convenção bienal. O evento aconteceu em Los Angeles, no Jain Center of Southern California, que é uma das mais lindas construções que já vi na América.

O tema da convenção era “Ecologia: o modo jainista”. A seleção desse tema reflete um foco central da tradição jainista: toda vida está interligada por apoio mútuo e interdependência.

O jainismo é uma tradição espiritual que não é bem conhecida pela maioria dos norte-americanos e é muito mal compreendida, de um modo geral. Tentar explicar o jainismo em um texto de blog resultaria numa descrição trivial, incapaz de fazer jus a uma tradição espiritual incrivelmente rica, que é, sem dúvida, uma das mais antigas do mundo, precedendo o budismo e o hinduísmo. No entanto, vou reproduzir, aqui, uma breve declaração preparada e distribuída por Yogendra Jain, que, além de ser vice-presidente da JAINA, tem um site chamado JainLink:

O jainismo é uma religião e um modo de vida. Há milhares de anos que os jainistas vêm praticando o vegetarianismo, a ioga, a meditação e o ambientalismo. Os jainistas têm três práticas centrais:

A não-violência é a compaixão e o perdão em nossos pensamentos, palavras e atos com relação a todos os seres vivos. Por essa razão, os jainistas são vegetarianos.

O não-absolutismo é o respeito ao ponto de vista alheio. Os jainistas encorajam o diálogo e a harmonia com as outras crenças religiosas.

A não-possessividade é o equilíbrio entre as necessidades e os desejos, ao mesmo tempo em que ficamos desprendidos das nossas posses.

Os jainistas acreditam na existência de uma Alma –em cada um dos seres vivos– que é eterna e divina. O modo de vida jainista (JAIN WAY OF LIFE – JWOL) respeita e honra todos os seres vivos através da prática da não-violência, do não-absolutismo e da não-possessividade. Somos todos interdependentes e, ao ter um modo de vida jainista, podemos trazer paz e espiritualidade às nossas vidas e àqueles ao nosso redor.

Essa declaração, que Yogendra distribui em cartões do tamanho de cartões de negócio, certamente não pretende ser uma explicação completa e exaustiva, mas uma descrição bem curta dos três princípios centrais que caracterizam o jainismo.

Os jainistas são não-absolutistas, mas não são relativistas; isto é, eles reconhecem que há verdade, mas que a verdade é frequentemente complexa. Uma coisa que os jainistas aceitam como verdade clara e absoluta é o princípio da Ainsa (Ahimsa), ou não-violência, que é, realmente, a mais importante ideia presente no jainismo. Muitos jainistas se referem à sua religião como a “religião da não-violência”.

Por causa de sua adesão à Ainsa, os jainistas não comem carnes (inclusive de peixe), ovos e mel. Há um movimento cada vez mais forte, dentro do jainismo, em direção ao vegetarianismo estrito e à rejeição ao uso de produtos animais para fazer roupas e para outros fins. Um dos mais proeminentes líderes espirituais vivos do jainismo é Gurudev Chitrabhanu, que é um vegano bem estrito. Não há nenhuma tradição espiritual que seja tão centrada nos animais não-humanos quanto o jainismo. Os jainistas não somente promovem o vegetarianismo (e, cada vez mais, o veganismo) como também estão por trás da maior parte das atividades de proteção animal do tipo “mão na massa”, realizadas na Índia.

Deram-me a grande honra de fazer o discurso de abertura da convenção deste ano. Como é de se esperar, falei sobre veganismo e a necessidade de reconhecer que o princípio da Ainsa requer que evitemos o uso de todos os produtos animais. Havia mais de 2000 participantes. Eles receberam minha palestra e minhas ideias sobre o veganismo com considerável entusiasmo. Ao longo dos quatro dias em que estive no evento, falei com centenas de pessoas que indicaram concordar com a ideia de que o veganismo é a maneira certa de reconhecer a Ainsa. Pelo menos umas doze pessoas me pararam para dizer que estavam se tornando veganas ali mesmo, naquele momento!

Embora a comida servida no evento não fosse totalmente vegana, era majoritariamente vegana, e todos os veganos foram completa e respeitosamente atendidos.

Gostei plenamente de estar na convenção, e aceito o modo de vida jainista –a versão vegana, é claro! Dou toda força para que vocês explorem essa tradição espiritual. Há um ótimo site que oferece (de graça) o texto integral de um grande número de livros em inglês (e outros idiomas).

E para aqueles cujas ideias a respeito dos direitos animais e da abolição forem, como as minhas, baseadas, em última instância, na não-violência: vocês provavelmente já são jainistas, só que nunca perceberam.

P.S.: Continuo recebendo e-mails de participantes da conferência que estão se tornando veganos. Um comentário:

Eu estava cético quando você disse que o chai podia ficar tão bom com leite de soja quanto com leite de vaca. Tenho 63 anos e nunca tinha tomado chá sem leite. Experimentei o que você recomendou (leite puro de soja da marca Silk, na embalagem vermelha). Uma delícia. Agora posso ser vegano, sem sofrimento algum (embora eu fosse fazer isso, de todo jeito, depois de ver sua palestra).

2009

Libertação > Abordagens > Francione